Caros todos,
Coloco abaixo no Blog o artigo escrito pelo professor Júnior sobre o caso Isabella. Vale a pena ler para entendermos melhor o circo armado pela mídia.
Boa leitura.
ABs,
F.
Que comoção é essa?
Neste texto, não questiono a necessidade de comoção, de cobertura e de ação da justiça, mas a natureza dessas atitudes!
Me lembro de ter visto em janeiro uma reportagem sobre um pai que, na periferia de Natal teria matado dois de seus filhos, um de um ano e outro de quase três, e em seguida colocado fogo na casa com os dois meninos dentro. Depois de vinte dias de uma histeria midiática e uma cartaze coletiva em torno do assassinato da menina Isabella me lembrei daquele caso e comecei a me perguntar por que ele não teve tanta presença da mídia e do Estado. Os mais reacionários de plantão irão dizer que estou forçando uma interpretação para encontrar uma postura equivocada do Estado e da mídia, e defender a incompetência deles.
Claro que não é equivocado investigar, indiciar, julgar, punir, cobrir e se indignar com eventos criminosos, sendo inclusive atitudes necessárias para a organização da sociedade. Mas questiono a contradição e parcialidade que ficaram expostos nos três seguimentos presentes no cenário do “espetáculo” que se montou em torno do assassinato da menina: polícia, mídia e população.
Me parece que a mídia se dispõe muito mais a expor um problema quando ele atinge uma criança branca da classe média de um condomínio fechado em uma grande capital. Não se vê a mesma cobertura e preocupação em apresentar os equívocos dos discursos fascistas sobre a redução da maioridade para punir crimes cometidos por crianças, quando estas se tornam criminosas por causa de outras violências cometidas contra elas e que a mídia ignora, não se dispondo a expor e discutir com profundidade. Tão pouco se questiona os excessos cometidos pela polícia quando ela invade casas de trabalhadores em nome de uma “segurança da sociedade” que nunca acontece.
Uma coisa muito curiosa é que eu nunca imaginei que tivéssemos uma capacidade técnica de pericia tão competente no Brasil. O que explica então centenas de crimes sem solução se acumulando nas delegacias de todo o país? Já assisti a uma meia dúzia de reportagens sobre pessoas que são presas, julgadas e condenadas sem ter cometido crime algum e ficam presas por anos até que a justiça identifique que houve um erro. O curioso é que nunca vi nessas reportagens pessoas da classe média vítimas desse equivoco judicial.
Acredito que a reação da população – ou “público”, já que se torna cada vez mais difícil estabelecer uma diferença de conceito – também se apresenta contraditória, pois não se vê a mesma comoção com as situações de injustiça cometidas todos os dias contra pessoas de outras classes sociais, e também não mostram tanta disposição para ficarem na porta dos legislativos questionando as leis que são criadas e que estão na origem da maior parte dos problemas sociais.
Acredito que a população também se indignaria com um crime cometido contra uma criança pobre da periferia, se este tipo de violência também tivesse destaque e fosse de interesse da mídia “explorá-lo”. Mas existe uma miopia social da população que não consegue perceber como é nocivo para a nossa interpretação da realidade o tipo de cobertura da mídia e a maneira como a justiça está lidando com este fato, e o maior prejuízo é o reforço de uma percepção da realidade a partir dos olhos da classe média na hora de buscar soluções para os problemas sociais.
Júnior Silva – 21 de abril de 2008
No Brasil é sempre assim mesmo! O pior, é ver a Rede Globo, em seus telejornais questionando o que leva tantas pessoas curiosas a se manifestarem no caso Isabella. Um coisa é óbvia, já não conseguimos ver um dia de televisão se sermos bombardeado por notícias desse caso. Logo, quem será que nos faz ficar assim tão curiosos e revoltados todos os dias, ao ponto até de julgarmos as pessoas. Acho que esse caso já deu o que falar e está enchendo o saco. Está pior do que os ataques do 11 de setembro que ficaram na mídia por 2 meses ou mais. Quanta gente morre de fome todos os dias, na nossa rua inclusive. Isso a mídia não mostra pq será????Será tão menos cruel????
Tem toda razão Gleydiane. Cabe a nós, profissionais da Comunicação, alertar contra esses excessos da mídia. Nós temos que ser os críticos mais sérios da mídia.
Abs,
F.