Júnior Silva ? 02/05/2008

Diogo Mainard, articulista da Revista Veja (sempre achei essa palavra um imperativo pretensioso) publicou mais um de seus lamentos reacionários, dessa vez criticando o sistema de cotas para negros nas universidades públicas tentando desqualificar a palavra Quilombo, uma experiência das mais caras para a nossa história das lutas populares contra o elitismo e suas políticas e economias desumanas.
Reacionários e ingênuos como Mainard há aos montes por aí, inclusive aqueles que apontam que o sistema democrático criou mecanismos como o vestibular para possibilitar o acesso à educação de maneira justa, pois estaria avaliando os méritos e o potencial do indivíduo. Ora, é claro que o computador que faz a leitura dos cartões de respostas e os professores que corrigem as provas discursivas não estão vendo se o candidato é negro ou branco. No entanto, a discriminação não está aí, e sim no caminho percorrido pelo candidato até chegar ao vestibular. Como podemos falar que o vestibular não é discriminatório se ele leva em conta apenas o conhecimento adquirido pela educação formal. Na verdade não está sendo avaliado o potencial do indivíduo, mas sim a qualidade de acesso que ele pode ter a informação e formação. Quantos filhos da classe média branca precisam trabalhar para que a família não passe dificuldades, até mesmo de sobrevivência. Quantos filhos de negros podem apenas estudar, dedicando todo seu tempo apenas a se formar e informar. Sabemos que todas as estatísticas nunca mostraram os negros com renda e poder aquisitivo maior que os brancos, por isso não é difícil concluir que os filhos dos negros têm menos acesso a internet, aquisição de livros, viagens que ampliem as experiências cognitivas e concretas sobre a história e geografia e até mesmo assistir aulas melhor alimentado, o que também faz grande diferença na qualidade do aprendizado. É claro que uma parte significativa da população branca também sobre todas essas privações, mas a segregação gera uma potencialização ainda mais nefasta desse quadro.
É necessária sim uma reparação social aos negros pelo que a elite branca desse país fez e continua fazendo. Não se trata de querer cobrar uma dívida que foi feita pelo seu ou pelo meu tataravô por que ela não é uma dívida individual, mas sim porque somos herdeiros de uma mentalidade que julga as pessoas pelo seu acesso a bens de consumo e sua cor, assim como no passado se julgava e se dava poder e importância social a quem era branco e tinha terra. Se os defensores dessa nossa democracia burguesa, que é responsável por esse modelo de vestibular acreditam realmente nela, deveriam como bons burgueses democratas assumir esse ônus que é social.
E é exatamente por isso que neste momento existe uma elite branca amedrontada com a proporção que a discussão sobre cotas têm tomado. É um grupo que historicamente sempre esteve no poder, e que pela primeira vez foi ?convidada? a dividi-lo. O texto de Minard, ao tentar satanizar o termo Quilombo reflete exatamente esse medo. No passado, o Quilombo de Palmares se tornou o pesadelo de todos os donos de escravos e terras do nordeste brasileiro, tanto que foi feito um dos maiores esforços econômico e políticos da época para acabar com o Quilombo. O recém empossado governador da capitania de Pernambuco reuniu toda a força militar presente no nordeste naquele momento e contou com o apoio (ou, quem sabe a exigência) de donos de terras e escravos da Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia e Maranhão e contrataram o mercenário Domingos Jorge Velho para liquidar com Palmares. Esse enorme esforço tinha um bom motivo. Palmares se tornava cada vez mais conhecido não só por ser um refúgio, mas também por ter se tornado um exemplo de comunidade coletiva, sem propriedade privada, com uso coletivo das terras de maneira equilibrada e sem discriminação. Em uma colônia onde a propriedade privada e concentração das terras nas mãos de uma pequena elite branca lhes garantia privilégio e poder político Palmares se apresentava como um mal exemplo que poderia levar toda a sociedade a questionar aquela concentração de riquezas.
É por essas questões que as cotas hoje se apresentam como um novo Palmares, pois elas são um ?mau? exemplo que já colocaram em xeque o discurso da competência e dos méritos individuais. Como podemos julgar méritos e competências em uma sociedade onde não existe igualdade de acesso a informação, educação, alimentação de qualidade, e além dessas privações ainda ser segregado.

Júnior Silva é graduado em filosofia e cursa como aluno especial o Mestrado em Artes na Universidade Federal do Espírito Santo. É professor de filosofia e história no ensino médio e ministra as disciplinas de Filosofia da Arte e Estudo Sócio Político Econômico Brasileiro na Faculdade Novo Milênio.